quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Jornal O Sol

Apostas online
Portugueses cada vez mais presos ao vício e a precisar de ajuda médica
Apostas on-line desportivas, de póquer e roleta dominaram nos últimos anos a vida de Miguel, um jogador compulsivo que resume o vício em três palavras: desafio, prisão e desespero, que o levaram a perder milhares de euros e a pedir ajuda médica.


Estes casos de jogo compulsivo chegam aos consultórios médicos à medida que a Internet se vai tornando mais acessível, sobretudo entre os jovens, mas segundo um psicólogo especialista em dependências são de difícil resolução.

A dependência de Miguel (nome fictício) começou há uma década, numa viagem de finalistas a Espanha, com as slot-machines. O desafio e o prazer que lhe proporcionavam começaram depois a atraí-lo para o Casino de Estoril, mas conseguiu resistir à tentação devido à distância que separava a sala de jogo da sua casa em Lisboa.

Há «quatro ou cinco anos» começou a apostar no mundo de jogos que a Internet oferecia e o vício foi-se agravando até se tornar uma «verdadeira prisão» que o levava muitas vezes a passar 12 horas agarrado ao computador e a perder 20 mil euros.

«Os jogos na Internet são o pior de tudo. É ter o vício em casa ou no trabalho disponível a qualquer momento», contou à Lusa o jovem, que preferiu não revelar o nome, mas que quis partilhar a sua experiência para alertar o número «cada vez maior» de jovens que caem nesta armadilha.

Começa-se a jogar por prazer, pelo desafio, com apostas muito pequenas. Mas depressa o desafio passa a uma necessidade incontrolável de jogar e «o dinheiro já não é importante». «Apostei em coisas que nem conhecia, como o hóquei norueguês», conta, recordando que numa aposta de póquer, que demorou 30 segundos, perdeu 600 euros.

Com a voz apressada, lembra ainda um fim-de-semana em que num acto de desespero para resgatar o dinheiro que estava a perder recorreu a uma conta bancária da mãe por telefone e gastou quatro mil euros.

Este acto ainda hoje o atormenta: «É um sentimento que não controlamos. Sabemos que nos prejudica, mas não conseguimos sair», afirma, recordando as muitas ocasiões no trabalho em que contava os minutos que faltavam para chegar a casa e jogar. «Se fosse preciso, começava a jogar às 19h00 e só parava às 06h00 do outro dia», disse, justificando: «quando se começa a perder entra-se na fase de desespero e jogamos para recuperar até ficar com a conta a zero».

A situação agravou-se há oito meses, quando foi viver sozinho e não tinha de dar satisfações a ninguém. «Em três dias gastava o meu ordenado de 1.700 euros e ficava sem dinheiro para comer», motivos que até obrigaram a mãe a pedir um empréstimo. Com a ajuda da namorada e dos pais, resolveu pedir ajuda médica há um mês por reconhecer que o jogo lhe estava a «arrasar» a vida, sendo o seu próximo passo procurar apoio nos Jogadores Anónimos.

Miguel não joga há um mês, mas confessa que é «muito difícil» resistir, lembrando que já tentou outras vezes e não conseguiu. «É um vazio complicado de gerir, uma pessoa viciada nunca deixa de o ser, vai vivendo um dia de cada vez tentando contornar o problema», lamentou.

Esta realidade é bem conhecida do psicólogo Pedro Hubert, especialista em jogo compulsivo e patológico, que alerta para os riscos desta dependência. Para o especialista, a grande dúvida é saber se os jogos on-line causam uma dependência mais rápida do que a oferta das salas de jogo tradicionais devido às vantagens que a Internet oferece sobre os casinos, como a acessibilidade, a disponibilidade 24 horas por dia, o pagamento com cartão de crédito e a confidencialidade.

Apesar de desconhecer o número de jogadores portugueses que apostam on-line, lembrou que o país tende a seguir a evolução de outros países como Inglaterra e Estados Unidos onde as percentagens de jogadores compulsivos têm «aumentado francamente».

A nível da sua experiência clínica, o psicólogo disse à Lusa que começa a ser significativo o número destes jogadores que procuram tratamento, totalizando já cerca de 15 por cento do total dos seus doentes.

Traçando o perfil destes jogadores, Pedro Hubert disse que são cada vez mais jovens, o que pode ser explicado com a sua facilidade em aceder à Internet. Além disso, muitos dos casos assinalados já tinham jogado em casinos.

«É uma geração que está muito habituada aos jogos e ao desafio de estarem ali com a máquina, àquele alheamento. A procura de euforia nessas máquinas tem uma facilidade com estes casinos on-line muito mais próximo», sustentou.

Quando os danos provocados pelo jogo começam a ser visíveis aparecem as dívidas, as mentiras, a agressividade, que destroem as relações familiares e muitas vezes a carreira profissional, além dos problemas de depressão ou vergonha.

Para Pedro Hubert, as consequências da adição on-line são tão destrutivas como o álcool e a droga, levando os familiares dos jogadores a procurarem a ajuda médica. Mas as taxas de sucesso da cura não são muito altas, entre os 30 e os 40 por cento, dependendo de vários factores, como a taxa de privação que a pessoa tem, se frequenta grupos de apoio de ajuda e do envolvimento familiar.

Bloquear os computadores, definir um limite de tempo e dinheiro antes de começar a jogar, criar linhas de ajuda e regras sobre publicidade ao jogo na Internet são alguns mecanismos que o psicólogo sugere para combater esta dependência.

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